Saudades e Bisturis

De toda vez que se vai o coração, o sangue pulsa a fim de preencher de fluído o buraco vazio, como o inflar incessante de um balão furado. De toda vez em que se some algo quisto da vista, a mente traz em vultos e neblina a imagem querida, e ao fechar dos olhos, a natureza vivaz dos sentidos puros, ouriçados, em alerta ao toque que se saberá não ter; reaviva e fantasia.


Agridoce sensação, que à boca seca e saliva, que espuma, como o quebrar de ondas, as entranhas da barriga. No paladar, a falta doce e o amargo querer, degustando cada segundo do inalcançável, pela medula a percorrer.


Saudosa saudade, diria o falso poeta, ai de mim sempre te ter, pois é preciso alimentar de boas e más lembranças, o lírico e poético sofrer. Que me marque a carne, como a cada novo corte de bisturi, que me corte profundo cada sentido no âmago que se remói por ti, já que sem você, oh nostalgia, creio não poder mais sentir.


Deixai invadir a saudade, de três milhas ou três passos, ou três idades nas vidas a sumir; das paixões e dos dogmas, com a maturidade a lhes diluir. Que me perfurem os fados, não só de minha boca, mas de outras sôfregas, que aos meus ouvidos venham a reagir. Que pulse o rubro da saudade, para me fazer acreditar que ainda estou por aqui.


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