Reflexos de Prata

I

Reflexo de prata,

luz de meus olhos nos seus,

intenso fulgor que retrata

esta falsa bravata dos meus.

Um febril fitar contínuo,

que no desespero, o verbo logo desata,

e os lábios secos, em desatino,

escondem a paixão imediata.

Sobe-me no peito, um suspiro calcinante,

que ao corpo prontamente arrebata,

enquanto vou mirando incessante

aqueles passivos lábios diplomatas,

de som doce e flutuante,

que à conversa conduz e desata,

enquanto em meu peito arfante

busca-se a palavra exata.

E, em minha boca falante,

de diálogo largo,

a língua abrasante

embriaga-se de vinho doce e café amargo.

na esperança do adiante,

de encontrar-se com aqueles outros:

tão finos e delicados.

II

Reflexo de prata,

luz de seus olhos nos meus,

desarmando a casamata

de meus parvos sentimentos ateus.

Sugam-me para dentro

estas órbitas dissimuladas,

tornando-se o centro

de minhas paixões incubadas.

Imã de corações,

senhora de minhas sonatas,

que não defino as colorações

destas íris abstratas.

Na verdade não me importam,

se verdes ou pardas,

apenas que me confortem

nestas noites atormentadas,

que me engulam por completo,

para perder-me por sua morada,

ou que façam de mim repleto

dessas cores nunca pintadas.

Leve meu reflexo,

livre-me desta velha alma,

pois nesse vítreo convexo

ela já está fixada.

III

Reflexo de prata,

luz de meus olhos nos seus.

Sentimentos que o peito acata,

sem perguntar as intenções dos teus.

Presa neste luzeiro,

nestas íris emoldurada,

não enxergo a paixão nascente,

conspícua pela pupila dilatada.

Vejo somente o espelho fronteiro,

onde minha alma está encarcerada,

entregue por vontade própria, dormente

por essas batidas incalculadas.

Sugam-me para dentro

os contornos negros desta simples mirada.

E eu, tolo, desconcentro.

Pelo sorriso escondido, com a mão requintada.

Sou levado,

por cada melindre hesitante,

separado,

pelo tempo que surge cortante.

IV

Vou me embora,

sem brilho, sem beijo, sem obstante,

à medida em que me aflora

um asmático murmúrio luxuriante.

Sento-me na noite,

de cigarro acesso, agonizante,

contemplando daqueles olhos o cintilante,

sentindo, do tempo, o açoite.

Sou imerso na madrugada,

ficando, por cada estrela, alucinante,

revendo nelas o brilho agora distante

daquelas íris encantadas.

Sinto o tórax palpitante,

enquanto fico em muda serenata,

tentando descobrir o doravante

com esse, agora fixado em mim, reflexo de prata.

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