O Licantropo

Da força que corre em minhas veias, sinto a respiração de uma animália adormecida. Uma pequena besta, enrolada na própria calda, em meu tórax escondida. Sinto-lhe arfar, a cada pulso, em cada angustia retida; por cada músculo, tendendo tomar o corpo que lhe confina.


Enroscada, como mancha negra, repousa esta fera cativa, de olhos semicerrados, aguardando que os tambores do peito a chamem com suas batidas. Uma vez desperta, desatada a morder imperativa, mastiga-me o cárdio, exercitando-lhe os dentes com meu coração em feridas.


Masca-me o peito de ociosa, esta fera lupina, aguardando que lhe deem espaço, esperando poder fugir paulatina; dobrando seu tamanho, a cada desgraça repentina, correndo aos uivos, da cabeça a barriga.


Rosna, arranha e mastiga. Come-me aos poucos, dilacera-me as tripas. Avança, mordida por mordida, aguardando a vara alheia que a atiça.


Tem gosto por sangue, seja o meu ou o de outras vítimas, e só sacia-lhe quando, por minha alma, o sabor ferroso a impregna. Tinge de vermelho, meu peito, minha carne, minhas vistas. Cresce em meu âmago, faz de minha alma o espólio de sua conquista.


E quando, por fim, de fora cutucam esta fera contida, ela escapa-me em estrondo, transbordando sua ira. E eu, feito fera ferida, deixo-a que tome posse, que minha voz vire o ladrar de sua cólera mortífera.


Acuado, a lamber minha feridas, escondo-me em meu íntimo, aguardando que se esgote sua vociferação purgativa, enquanto em minha boca espuma o veneno de sua tóxica saliva. Sinto atingir-me o gosto escarlate, descendo, deslizando, a cair em meu espírito como ogiva. E, no entanto, delicio-me com sabor, compactuando com sua essência destrutiva.


Quando, ao final, gasta sua força erosiva, volta a dobrar-se em meu peito, a se enroscar acolhida. Caí satisfeita em sono, exaurida, mas mantem-se alerta – ativa – para que, ouvindo a mais simplória das batidas, volte a abrir os olhos, a despertar-se efusiva. E em modorra, ponha-se, em meu cárdio, a afiar os dentes com suas mordidas.

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