O Escafandrista

Penso eu, nunca ter realmente nascido, e estar agora no etéreo e quente útero de minha vil imaginação, pendendo entre maldições hereditárias, remoendo falsas dores de solidão. O infortúnio de uma cabeça pensante, de uma memória latente, de um remorso pulsante, de um simples impulso, muitas vezes relutante.


Sou um filho prematuro do mundo, aquele que vê tudo pelos vidros da encubadora, distorcendo, nas quinas deste aquário, a imagem a meu favor.


Crie-me uma prole defeituosa, tendo a meu lado, somente a expressão. Em sonetos cantei meus amores, de crônicas fiz minhas teorias, em ensaios chulos desabafei o que me repudia. Nos desenhos, fiz meu mundo paralelo - criei minha fantasia - e quando aprendi a falar, descobri-me um escafandrista.


Da oficina do diabo, criei meu atelier, abrindo e cauterizando velhas feridas, brincando com o rubro do sangue que dei, dançando ao latejar de minhas têmporas doloridas. Um arlequim preso, um mero saudosista, um bobo insone, bailando entre falsas lantejoulas coloridas.


De carmesim, pintei minhas cortinas, e fiz do mundo, a platéia para minha comédia acometida. Fui o anti-herói de vidas mal vividas, um Dom Quixote, um Fausto, um Puck, um Pagliacci; um bebado de dedos sujos de tinta. Manejando penas e cinzeis, construí minha existência, tal qual um ator preparando-se nas coxias, escondido dos olhos para apresentar-se com toda a maestria.


Por minha carapaça de metal, prendi as idéias em minha roupa de escafandrista, mergulhando por dentro, e não por fora, desta minha fantasia.


Sou Romântico, sou romancista, sou um ordinário roteirista, um titereiro das emoções, um maldito manipulador de cordas, um menestrel dedilhador, sou até uma poetisa. Sou traços, sou cores, sou notas, sou vírgulas - sou um cavernista - encubado em um mundo próprio. O que estou tentando dizer, é que sou um artista.