O Ervanário

O meu peito é um relicário, um relicário do pesar alheio. Por tantas mágoas e receio, por tantas chagas, que ao próximo estendo o espelho. Sou aquele que, compulsivo, guarda dos outros os anseios, e que, no imenso arquivo, faz dos dramas hospedeiros o adendo ao meu tom cativo.


Guardo, das almas o impreciso, das falhas o inciso, e dos louros, faço questão de não esquecer-me dos risos. Uma compota separada, a cada ombro amigo, um frasco novo, a cada história de desconhecidos. Acumulo, por entre potes e vidros, da lágrima tímida ao camuflado sorriso, da emoção lívida ao desabafo conciso.


É um espólio denso, de amores lisos e lágrimas de vidrilhos, de amargos colmilhos, enrolados em grossos fatos imprecisos. Pendurados, conservo doces ramos de amores desiludidos, ao lado de emoções murchas, secas ao sol, de galhos curtidos. Em conserva, tenho o cancro dos arrependidos, assim como, mofados frutos de amores partidos.

Tenho pó de raízes de culpa, feito amido. Tenho grãos, de sonhos não plantados e de temores não colhidos. Tenho óleos perfumados, de paixão contida. Há até desidratados ramalhetes, nascidos de abertas feridas.


Faço nos outros minha colheita, juntando todo tipo de especiaria, misturando, com meus próprios brotos de fantasia. Vou galgando, a cada mistura bem sucedida, entre o amargo desgostoso e a tétrica nostalgia – tantas vezes nem vivida. Vou impregnando-me, da fragrância genuína, que de cada invólucro aberto, exala por meu tórax e o impregna.


Sou levado, no preparo de minhas iguarias, sou tragado, por minha própria nicotina. Deixo que me leve cada acre gosto e cada eflúvio de euforia, que cada composto, fermente à extasia. E que depois de pronto, mesmo as vezes a transfigurar meu rosto, deixo que tinja minha alma vazia.



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