Missa de 7º dia

Desejaria boa noite, se isso tivesse algum sentido. Desejaria, a muitos, consolo, se pudesse o ouvido dá-lo como o prometido. Desejaria mais palavras, quem sabe outras línguas, para que o peito surdo se acalmasse, e entendesse que saudade faz parte da vida.


Desejaria agradecer, como assim me foi pedido, a tantos que há pouco ajudaram, mas não sei se só com o verbo me faria por entendido. Gostaria agora de um novo dicionário, que me explicasse dos sentimentos a genealogia, que me ajudasse a construir palavras de alívio, que desse aos outros mais que frases bonitas.


Mas sou só um escritor, não tenho a força que no silêncio está contida. A mudez da lembrança, ou de um olhar nela perdida. O abraço calado, a lágrima que escorre tímida; um quieto afago, ou a simplória presença, que por estar ao lado tranquiliza. Não desejo enaltecer a dor, que a falta traz à vida, mas lembrar do refúgio, dentro de cada um que continua a vida.


Queria, aos amigos órfãos, reviver aquela lembrança esquecida, e às almas carentes, trazer a risada que na memória está retida. Mas é muito difícil, com palavras, resumir uma vida, só posso pedir então que assim se lembrem: com profunda alegria.


Que a fé nos sonhos venha a colorir, as tardes mornas de nostalgia, e que as conversas e conselhos trocados, não sejam na rotina esquecidas. Que nesse palco sem roteiro, no qual se apresenta a vida, não esqueçam de seus personagens, que agora vivem nas coxias. Pois ninguém se ausenta de verdade, de uma memória por nós protegida. O que nos separa desse espetáculo, é somente uma cortina.

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