Castelos de Areia

Na melancolia de teu olhos

vejo praias não desbravadas

sobre a margem de tuas olheiras,

de insólita tristeza, cavadas.


Vejo, as segundas-feiras

teu despertar luzeiro,

o luar nascente, fronteiro,

de suas órbitas cansadas.


No mar de Aral de sua íris,

no fluxo e refluxo

de suas lágrimas salgadas

vejo formar-se bancos de areia,

nas olheiras quebrantadas.


Vejo-te um mar de Rosa,

um mar de mágoas,

um mar de estrelas,

brilhando ao longe alheia

às soluções querê-las.


Sinto, em teu clamor de vento

que traz o saibro a contra-mão,

afogar-te em suspirado alento,

a roubar-lhe a respiração.


E à Rosa aí dentro,

peço-lhe, antes, perdão,

mas seu teu olhar reflete no meu

e se teu é o ar de meu pulmão,

como posso deixar-te ao relento?

como posso não estender-lhe a mão?


Se enxergo o mar frente,

mergulhar não me abstenho,

pois se de Rosa é mar,

eu mesmo não me detenho.

Mergulho em tuas ondas em rebento,

e sem pedires, ao teu encontro venho.


Para que de tuas praias

possas então soprar a areia,

e de teus olhos singelos

livrar-se da tristeza que os margeia.


E que do saibro em tua garganta,

gerando-lhe aflição,

que sejam então feito castelos

pois com o vento eles partirão.

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