Apnéia

Olho para baixo: reflexo de mágoa na lâmina fria, fincada sobre o esterno que segura, através do aço, a asfixia. Excalibur em minha garganta, gosto de ferro na tosse contida. Pulmões em chama, queimam brônquios em atrofia.


Sobe pelo tórax e ao peito inflama, a falta de fôlego na respiração torcida. Enquanto a muda boca clama, buscando ar faringe acima. Carregado de ausência o peito reclama, falta-lhe ar, falta-lhe vida. Vácuo de esperança, sufoco ínfimo em agonia.


Engasgo feito gato em ânsia, com escarro de velhas feridas, sabor de pus em abundância, por tentar curar-me a lambidas. Galga-me novo refluxo de lembranças, a travar na lâmina ao externo fincada - pretérito afoga-me - na memória consternada. Um passado longo e frouxo, que parece, não ter chego à nada...


Apnéia da existência, segurando a respiração, preso em um milésimo de fôlego, passam-se os dias sem razão. Contados ao cronômetro, são eternidade mal vivida. Pelo calendário, pouca coisa acontecida.


Sigo os dias rarefeito, atrás de uma tragada de bituca consumida. Sem ar busco fumaça - o fumo pela glote transpassa e preenche o vácuo de nicotina - O pigarro à lâmina se junta, arranha seco em sintonia, saí no hálito feito miasma, e por fim ao sufoco se alia.


Mas, quando depois desse cigarro, vier a calmaria, e, eu soprar toda minha alma para fora, talvez vá-se embora essa asfixia.