Supernova

I

Envolto no fino vento soprado

os pensamentos lhe apagavam a vista.

Falava só sem ser escutado,

dialogava mudo com a senhora fantasia.

Ocupava cheio seu metro quadrado

- corpo calvo, feito bagaço -

Chapéu no colo, crânio destapado,

donde as idéias lhe fugiam em embaraço.

À vista, treva turva,

hora mais escura que precede o dia.

Madrugada passada da curva.

- Garoava invisível na noite fria. -

Não lhe havia vento, não lhe havia chuva.

Havia noite que o consumia.

Mas não podia ignorá-los,

pois no tutano, simplesmente os sentia.

II

Hiato da madrugada,

não há sinal de vida,

vazio de forma e de vulto

lhe davam a calma invertida.

De escuro era feito

- não o panorama, não a vista -

mas o nó de seu peito,

surgindo oportunista.

Escuro, mas não qualquer escuro.

Buraco negro

- abstrato obscuro -

Vala funda,

de sentimento imaturo.

Gravidade forçada

que suga para o vazio furo,

qualquer angustia apanhada,

qualquer errante sussurro.

E o velho peito

faz-se de novo negror nascituro.

Tem a calma roubada

pelo silêncio noturno.

III

Não há opção em seu leito,

o sono lhe deixa inseguro.

Amarga insônia atestada,

de devaneio soturno.

Olhos abertos ou fechados

para ele não importa,

os neurônios assombrados

trazem-lhe igual resposta:

Uma angústia atrás do cárdio,

tal qual peso atrás da porta;

um calo, no músculo afixado,

uma injuria descomposta.

Vem certeira a galopada,

retalhando a velha aorta.

Vem tocada pela espora

a ânsia predisposta.

IV

Já não sabia mais a essa hora

o que fazer do peito ardido.

Era tanta voz, tanto alarido

- tanto fantasma,

que da aurora vinha fugido -

Pela varanda afora,

deixa que venha assim corrido,

qualquer inválido, qualquer ferido

- qualquer assombro -

pelo breu revivido.

Orbitam-lhe agora

demônios a coagi-lo,

feito mariposas na noite,

atraídos por seu brilho.

Amolada brisa lhe devora,

sobe o osso a possui-lo,

orvalha a carne ainda a noite,

com espectros em estribilho.

Sucumbe sem demora,

enquanto do céu escorre o piche.

Seu singelo astro de outrora

é pintado então de azeviche.

V

Seu tórax está por fim refeito

pela madrugada impassível.

A antiga luz de seu peito,

perdeu em suma o combustível.

E a estrela da qual era feito,

enfim se apaga…

dando vida a um buraco negro

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