Querelas dos meus Bem-te-vis

Ouvi um bem-te-vi solitário auto afirmar-se com seu canto prepotente, gritando à rua, sua soberania esquecida. Ouvi de longe, um bem-te-vi invisível, bradando mágoas da vida. 

 

Por muitas vezes, ouvi bem-te-vis, sem notar sua essência intangível, fiz-me de surdo, a seus cantos e soluços retorcidos. Vi bem-te-vis chorarem, em minha sacada, em pleno dia, mas nunca os ofereci consolo - maldita maldade infinda!

 

Outro dia, um bem-te-vi veio a minha janela, desabafar dores escondidas, gritando em lamento, como se estivesse eternamente no encalço da pessoa perdida. Em sua língua de pios, parecia-me bradar em busca de respostas, como aquele que grita a esmo, o nome dos desaparecidos. 

 

Em seus lamentos em notas, gritam os tais bem-te-vis, diferente do alegre pardal, que canta suas baladas sem sentir. Vistoso cromo de plumas, carregado de agonia - um belo bem-te-vi - fazendo de sua existência, a lastima de viver sem dó, somente em si. 

 

Conspícua ave solitária, procurando a atenção, gemendo ao mundo, o apelo que o vento carrega em vão. De seu ganido espaçado, a melancolia desistente em sua voz, que se outro responde, rende-se a um triste desespero algoz. Torna-se a aflição do inalcançável, o dueto de bem-te-vis, que nidificam dores, sem aproximarem-se, sem ao menos querer ouvir. Seguem lamuriando com o outro, como quem conversa com quem não se vê, perdidos, procurando fragmentos de seus peitos sem porquês. 

 

Triste máscara negra, deste poeta ribeiro, confinado na aflição de seu cantar, tampando-lhe a face para aquilo que é tão fácil de alcançar. Um pássaro que chora procurando o que está em si, mas me digam: afinal, quem nunca fez papel de bem-te-vi?

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Entre. Vamos! Deixe-se seduzir. Siga o caminho mais curto. Acredite, simplesmente acredite, e farei seus problemas sumir. Venha futuro aluno sem luz, venha conhecer minhas soluções, atravesse o véu de minha tenda, que lhe prometo minhas melhores argumentações.

I

Envolto no fino vento soprado

os pensamentos lhe apagavam a vista.

Falava só sem ser escutado,

dialogava mudo com a senhora fantasia.

Ocupava cheio seu metro quadrado

- corpo calvo, feito bagaço - 

Chapéu no colo, crânio destapado, 

donde as idéias lhe fugiam em embaraço. 

À...

Olho para baixo: reflexo de mágoa na lâmina fria, fincada sobre o esterno que segura, através do aço, a asfixia. Excalibur em minha garganta, gosto de ferro na tosse contida. Pulmões em chama, queimam brônquios em atrofia.

A áspera língua que saliva mel, sente agora o gosto de cinza. E a antes pena preta que com tinta riscava o papel, soprada, encontra-se perdida. Da voz, um ganido torto, uma lembrança do assovio antes cantado. Um rouxinol quase morto. Desplumado.

Das trovadas me resta o...

Desejaria boa noite, se isso tivesse algum sentido. Desejaria, a muitos, consolo, se pudesse o ouvido dá-lo como o prometido. Desejaria mais palavras, quem sabe outras línguas, para que o peito surdo se acalmasse, e entendesse que saudade faz parte da vida.

Partiu-se o coração.

Comprou passagem e foi embora.

O corpo, largou em falência,

atravessando o pranto sem demora.

Correu à estação,

pulou pela a boca a fora.

E o peito, em urgência,

gritou: E agora?!

I

Parece-me tão leve

o peso de teu coração.

Parece-me tão bonita

essa tua ingênu...

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