O Soldado de Mármore

Minha cutiz de calcário não foi me dada, nem quem dera foi forjada, na quentura de minha própria construção. Não é tampouco armadura, ou coisa fácil de desgarrar, é rocha pura, não inquebrável, mas difícil de penetrar. Arnês de pedra, sob medida ao meu corpo vão, peça maciça, rija, as vezes de difícil locomoção.

 

Assim como outros, fui feito de pele, de osso, e de carne para se machucar. Fui feito flácido, tolo, fácil de dobrar. Um badulaque inútil, um ser carente, carente de escudo para se armar. Um embornol de carne, um saco fácil de se rasgar.

 

Fui feito homem, assim como tantos o são, mas de pouco em pouco, fiz minha primeira armadura: de pedra sabão. Construí com esmero, polindo dedos, braços, protegendo-me o coração, mas ao primeiro fronte que bati, vi minha casca partir-se ao chão.

 

Eu era comida do mundo, coisa simples de se deglutir, mais um verme imundo, para se abater e se consumir.

 

Joguei então meu trunfo, sob pressão me pus a sucumbir, e no calor absurdo, desfiz-me para depois reconstruir. Criei-me forte, furibundo, de rocha a se esculpir. E então voltei ao mundo, apostando para ver quem podia me destruir.

 

Fiz-me duro, para que quebrassem os dentes - quebrassem tudo - ao tentar me mastigar , fiz de mim meu próprio escudo, para que não pudessem meu tronco transpassar. Eu era rocha, calcário de difícil remoção, uma vez que acertado meu destido, seguia pisando, atropelando, aqueles que vinham em minha direção.

 

Tornei-me inquebrável, para as porradas que desejavam me inflingir, sustentado por nervos e veios de rocha, que a meu corpo todo vinham a cobrir. Por dentro, fraco e mole, assim como em criação, mas por fora, virara o homem destemido, no conforto de sua guarnição. Protegia quem eu realmente era, por trás dessa carapaça, muitas vezes mais forte que latão.

 

Fui aríate, fui muro, fui até portão, ignorando sobre as empreitadas em que me metia, aproveitando-me de minha alcançada proteção. Mas ainda era carne, ser de fácil esmagar, e sendo assim acreditei-me pedra, para que nem o espírito pudessem me quebrar.

 

Convenci-me que assim eu era, mármore de nobre lapidação, impenetrável porque queria, porque desejava estar longe dessa multidão.

 

E aquele o qual eu queria proteger - o meu débil coração - acabou por acreditar-se igualmente pedra, batendo sólido e em disritimada lentidão. Foi diminuindo seu pulsar, como rocha inerte, imóvel, que nem tenta, pelo que for, se movimentar.

 

Devo confessar, que desde então, as vezes nada posso sentir, porem tenho plena noção, de que hora ou outra, vou despeçar, que em algum dia, irei em cacos sucumbir. Mas de tantas vezes que fui a luta, não puderam até agora me quebrar, só geraram-me rachaduras, traços negros, que a minha armadura vieram tigrar. Estética obscura, que meu semblante veio a manchar. Não por bravura, mas por outra coisa: pela classura que tentam de mim tirar.

 

Estou aqui intocado - ainda - no forte abatido, à minhas fissuras observar. Estou cá fechado, em minha própria berlinda, até agora acolhido, mas seriamente de meio peito a duvidar.

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I

Envolto no fino vento soprado

os pensamentos lhe apagavam a vista.

Falava só sem ser escutado,

dialogava mudo com a senhora fantasia.

Ocupava cheio seu metro quadrado

- corpo calvo, feito bagaço - 

Chapéu no colo, crânio destapado, 

donde as idéias lhe fugiam em embaraço. 

À...

Olho para baixo: reflexo de mágoa na lâmina fria, fincada sobre o esterno que segura, através do aço, a asfixia. Excalibur em minha garganta, gosto de ferro na tosse contida. Pulmões em chama, queimam brônquios em atrofia.

A áspera língua que saliva mel, sente agora o gosto de cinza. E a antes pena preta que com tinta riscava o papel, soprada, encontra-se perdida. Da voz, um ganido torto, uma lembrança do assovio antes cantado. Um rouxinol quase morto. Desplumado.

Das trovadas me resta o...

Desejaria boa noite, se isso tivesse algum sentido. Desejaria, a muitos, consolo, se pudesse o ouvido dá-lo como o prometido. Desejaria mais palavras, quem sabe outras línguas, para que o peito surdo se acalmasse, e entendesse que saudade faz parte da vida.

Partiu-se o coração.

Comprou passagem e foi embora.

O corpo, largou em falência,

atravessando o pranto sem demora.

Correu à estação,

pulou pela a boca a fora.

E o peito, em urgência,

gritou: E agora?!

I

Parece-me tão leve

o peso de teu coração.

Parece-me tão bonita

essa tua ingênu...

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