O Moleiro

Meu trabalho é parco, dependente do mó em meu coração. É espera resoluta, pelo enxague de sentidos - pelo desague de paixão - Por qualquer movimento, que venha a gerar força na roda dentada de meu peito vão.

 

Trabalho com uma máquina prosaica, um rude e arcaico moedor e grão, um moinho de carne, fazendo pó de cada sentimento, pulsando no exercício de triturar emoção. 

 

Passo muito tempo andando pelas barragens, observando o acumulo de sensação, na assustadora paisagem, de enormes ondas a chocarem-se em meu rude paredão, bradando grave o desejado expurgo pela imensurável lotação.

 

Há de ser paciente, ela não se enche simplesmente ao meu desejo. Posso, e faço normalmente, é ouvir em seus sussurros, cognatos líquidos, pequenas palavras diferentes, que geram-me lampejos. Não devo também, encher ao meu gosto a albufeira, sensações assim jogadas, forjadas, sempre movem atravancada a roda de minha máquina ribeira. 

 

Minha labuta, muitas vezes é esperar. Saber o momento certo de se abrir a barreira, não precisa cheia estar, mas, deve dar conta, do mó, a aguaceira. Fico, ao topo do engenho a observar, vislumbrando a alma agitada pelas sensações a tremular, com a corrente que lhe traz incertezas. Mas não devo ao destino das águas rogar. Interferir em seu caminho é a emoção manipular, é tentar imitar a natureza. É alterar o produto de minha moenda.

 

Não existe hora nem lugar, a que a barragem dependa, para que se encontre suficientemente cheia, para que o moinho com ela condescenda. Só devo ter espaço para trabalhar, quando é pedida a encomenda, e possa, com excelência executar, a maceração para que, não só a minha, mas outra cabeça depreenda.

 

 

Abro primeiramente as barragens, inundando meu peito, expondo o cárdio a agitação, que rodando apressado, move o mó pesado, em busca de dar conta a exacerbada vazão. Enche-se o tórax, de memórias, culpas e afeição, vindo quase a afogar a roda d’água, enquanto, esbaforido, subo rápido a construção. E lá no topo, de manivela a mão, rodando engrenagens, ponho-me ao exercício de trituração.

 

 

Vou girando a alavanca, deste engenho pesado, desta peça dura, moendo fartura de emoção, trabalhando em labuta, para macerar cada diminuta semente de aflição. Roda a roda a cada angustia, a novo rubro encharque em meu coração, fazendo farinha de silabas – miúdos pedaços de expressão. - E quando finalmente se vai a demanda, quando esvazia-se a albufeira, desço da cabeça e alojo-me em minha velha trincheira - o calejado coração - esperando que novamente se encha a barreira, que venham novas águas, que se renove de sensação. 

 

Após o trabalho feito, observando a represa vazia, espero que nunca se transborde a corredia sensação. Que eu possa sempre dela fazer girar o moinho, possa sempre criar novo travessão, manufaturar missivas, que não só a mim, mas aos outros, sirvam de oração.

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Entre. Vamos! Deixe-se seduzir. Siga o caminho mais curto. Acredite, simplesmente acredite, e farei seus problemas sumir. Venha futuro aluno sem luz, venha conhecer minhas soluções, atravesse o véu de minha tenda, que lhe prometo minhas melhores argumentações.

I

Envolto no fino vento soprado

os pensamentos lhe apagavam a vista.

Falava só sem ser escutado,

dialogava mudo com a senhora fantasia.

Ocupava cheio seu metro quadrado

- corpo calvo, feito bagaço - 

Chapéu no colo, crânio destapado, 

donde as idéias lhe fugiam em embaraço. 

À...

Olho para baixo: reflexo de mágoa na lâmina fria, fincada sobre o esterno que segura, através do aço, a asfixia. Excalibur em minha garganta, gosto de ferro na tosse contida. Pulmões em chama, queimam brônquios em atrofia.

A áspera língua que saliva mel, sente agora o gosto de cinza. E a antes pena preta que com tinta riscava o papel, soprada, encontra-se perdida. Da voz, um ganido torto, uma lembrança do assovio antes cantado. Um rouxinol quase morto. Desplumado.

Das trovadas me resta o...

Desejaria boa noite, se isso tivesse algum sentido. Desejaria, a muitos, consolo, se pudesse o ouvido dá-lo como o prometido. Desejaria mais palavras, quem sabe outras línguas, para que o peito surdo se acalmasse, e entendesse que saudade faz parte da vida.

Partiu-se o coração.

Comprou passagem e foi embora.

O corpo, largou em falência,

atravessando o pranto sem demora.

Correu à estação,

pulou pela a boca a fora.

E o peito, em urgência,

gritou: E agora?!

I

Parece-me tão leve

o peso de teu coração.

Parece-me tão bonita

essa tua ingênu...

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