O Licantropo

Da força que corre em minhas veias, sinto a respiração de uma animália adormecida. Uma pequena besta, enrolada na própria calda, em meu tórax escondida. Sinto-lhe arfar, a cada pulso, em cada angustia retida; por cada músculo, tendendo tomar o corpo que lhe confina.

 

Enroscada, como mancha negra, repousa esta fera cativa, de olhos semicerrados, aguardando que os tambores do peito a chamem com suas batidas. Uma vez desperta, desatada a morder imperativa, mastiga-me o cárdio, exercitando-lhe os dentes com meu coração em feridas.

 

Masca-me o peito de ociosa, esta fera lupina, aguardando que lhe deem espaço, esperando poder fugir paulatina; dobrando seu tamanho, a cada desgraça repentina, correndo aos uivos, da cabeça a barriga.

 

Rosna, arranha e mastiga. Come-me aos poucos, dilacera-me as tripas. Avança, mordida por mordida, aguardando a vara alheia que a atiça.

 

Tem gosto por sangue, seja o meu ou o de outras vítimas, e só sacia-lhe quando, por minha alma, o sabor ferroso a impregna. Tinge de vermelho, meu peito, minha carne, minhas vistas. Cresce em meu âmago, faz de minha alma o espólio de sua conquista.

 

E quando, por fim, de fora cutucam esta fera contida, ela escapa-me em estrondo, transbordando sua ira. E eu, feito fera ferida, deixo-a que tome posse, que minha voz vire o ladrar de sua cólera mortífera.

 

Acuado, a lamber minha feridas, escondo-me em meu íntimo, aguardando que se esgote sua vociferação purgativa, enquanto em minha boca espuma o veneno de sua tóxica saliva. Sinto atingir-me o gosto escarlate, descendo, deslizando, a cair em meu espírito como ogiva. E, no entanto, delicio-me com sabor, compactuando com sua essência destrutiva.

 

Quando, ao final, gasta sua força erosiva, volta a dobrar-se em meu peito, a se enroscar acolhida. Caí satisfeita em sono, exaurida, mas mantem-se alerta – ativa – para que, ouvindo a mais simplória das batidas, volte a abrir os olhos, a despertar-se efusiva. E em modorra, ponha-se, em meu cárdio, a afiar os dentes com suas mordidas. 

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Entre. Vamos! Deixe-se seduzir. Siga o caminho mais curto. Acredite, simplesmente acredite, e farei seus problemas sumir. Venha futuro aluno sem luz, venha conhecer minhas soluções, atravesse o véu de minha tenda, que lhe prometo minhas melhores argumentações.

I

Envolto no fino vento soprado

os pensamentos lhe apagavam a vista.

Falava só sem ser escutado,

dialogava mudo com a senhora fantasia.

Ocupava cheio seu metro quadrado

- corpo calvo, feito bagaço - 

Chapéu no colo, crânio destapado, 

donde as idéias lhe fugiam em embaraço. 

À...

Olho para baixo: reflexo de mágoa na lâmina fria, fincada sobre o esterno que segura, através do aço, a asfixia. Excalibur em minha garganta, gosto de ferro na tosse contida. Pulmões em chama, queimam brônquios em atrofia.

A áspera língua que saliva mel, sente agora o gosto de cinza. E a antes pena preta que com tinta riscava o papel, soprada, encontra-se perdida. Da voz, um ganido torto, uma lembrança do assovio antes cantado. Um rouxinol quase morto. Desplumado.

Das trovadas me resta o...

Desejaria boa noite, se isso tivesse algum sentido. Desejaria, a muitos, consolo, se pudesse o ouvido dá-lo como o prometido. Desejaria mais palavras, quem sabe outras línguas, para que o peito surdo se acalmasse, e entendesse que saudade faz parte da vida.

Partiu-se o coração.

Comprou passagem e foi embora.

O corpo, largou em falência,

atravessando o pranto sem demora.

Correu à estação,

pulou pela a boca a fora.

E o peito, em urgência,

gritou: E agora?!

I

Parece-me tão leve

o peso de teu coração.

Parece-me tão bonita

essa tua ingênu...

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