O Escafandrista

 

 

Penso eu, nunca ter realmente nascido, e estar agora no etéreo e quente útero de minha vil imaginação, pendendo entre maldições hereditárias, remoendo falsas dores de solidão. O infortúnio de uma cabeça pensante, de uma memória latente, de um remorso pulsante, de um simples impulso, muitas vezes relutante.

 

Sou um filho prematuro do mundo, aquele que vê tudo pelos vidros da encubadora, distorcendo, nas quinas deste aquário, a imagem a meu favor.

 

Crie-me uma prole defeituosa, tendo a meu lado, somente a expressão. Em sonetos cantei meus amores, de crônicas fiz minhas teorias, em ensaios chulos desabafei o que me repudia. Nos desenhos, fiz meu mundo paralelo - criei minha fantasia - e quando aprendi a falar, descobri-me um escafandrista.

 

Da oficina do diabo, criei meu atelier, abrindo e cauterizando velhas feridas, brincando com o rubro do sangue que dei, dançando ao latejar de minhas têmporas doloridas. Um arlequim preso, um mero saudosista, um bobo insone, bailando entre falsas lantejoulas coloridas.

 

De carmesim, pintei minhas cortinas, e fiz do mundo, a platéia para minha comédia acometida. Fui o anti-herói de vidas mal vividas, um Dom Quixote, um Fausto, um Puck, um Pagliacci; um bebado de dedos sujos de tinta. Manejando penas e cinzeis, construí minha existência, tal qual um ator preparando-se nas coxias, escondido dos olhos para apresentar-se com toda a maestria.

 

Por minha carapaça de metal, prendi as idéias em minha roupa de escafandrista, mergulhando por dentro, e não por fora, desta minha fantasia.

 

Sou Romântico, sou romancista, sou um ordinário roteirista, um titereiro das emoções, um maldito manipulador de cordas, um menestrel dedilhador, sou até uma poetisa. Sou traços, sou cores, sou notas, sou vírgulas - sou um cavernista - encubado em um mundo próprio. O que estou tentando dizer, é que sou um artista.

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Entre. Vamos! Deixe-se seduzir. Siga o caminho mais curto. Acredite, simplesmente acredite, e farei seus problemas sumir. Venha futuro aluno sem luz, venha conhecer minhas soluções, atravesse o véu de minha tenda, que lhe prometo minhas melhores argumentações.

I

Envolto no fino vento soprado

os pensamentos lhe apagavam a vista.

Falava só sem ser escutado,

dialogava mudo com a senhora fantasia.

Ocupava cheio seu metro quadrado

- corpo calvo, feito bagaço - 

Chapéu no colo, crânio destapado, 

donde as idéias lhe fugiam em embaraço. 

À...

Olho para baixo: reflexo de mágoa na lâmina fria, fincada sobre o esterno que segura, através do aço, a asfixia. Excalibur em minha garganta, gosto de ferro na tosse contida. Pulmões em chama, queimam brônquios em atrofia.

A áspera língua que saliva mel, sente agora o gosto de cinza. E a antes pena preta que com tinta riscava o papel, soprada, encontra-se perdida. Da voz, um ganido torto, uma lembrança do assovio antes cantado. Um rouxinol quase morto. Desplumado.

Das trovadas me resta o...

Desejaria boa noite, se isso tivesse algum sentido. Desejaria, a muitos, consolo, se pudesse o ouvido dá-lo como o prometido. Desejaria mais palavras, quem sabe outras línguas, para que o peito surdo se acalmasse, e entendesse que saudade faz parte da vida.

Partiu-se o coração.

Comprou passagem e foi embora.

O corpo, largou em falência,

atravessando o pranto sem demora.

Correu à estação,

pulou pela a boca a fora.

E o peito, em urgência,

gritou: E agora?!

I

Parece-me tão leve

o peso de teu coração.

Parece-me tão bonita

essa tua ingênu...

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