O Ervanário

O meu peito é um relicário, um relicário do pesar alheio. Por tantas mágoas e receio, por tantas chagas, que ao próximo estendo o espelho. Sou aquele que, compulsivo, guarda dos outros os anseios, e que, no imenso arquivo, faz dos dramas hospedeiros o adendo ao meu tom cativo.

 

Guardo, das almas o impreciso, das falhas o inciso, e dos louros, faço questão de não esquecer-me dos risos. Uma compota separada, a cada ombro amigo, um frasco novo, a cada história de desconhecidos. Acumulo, por entre potes e vidros, da lágrima tímida ao camuflado sorriso, da emoção lívida ao desabafo conciso.

 

É um espólio denso, de amores lisos e lágrimas de vidrilhos, de amargos colmilhos, enrolados em grossos fatos imprecisos. Pendurados, conservo doces ramos de amores desiludidos, ao lado de emoções murchas, secas ao sol, de galhos curtidos. Em conserva, tenho o cancro dos arrependidos, assim como, mofados frutos de amores partidos.

Tenho pó de raízes de culpa, feito amido. Tenho grãos, de sonhos não plantados e de temores não colhidos. Tenho óleos perfumados, de paixão contida. Há até desidratados ramalhetes, nascidos de abertas feridas.

 

Faço nos outros minha colheita, juntando todo tipo de especiaria, misturando, com meus próprios brotos de fantasia. Vou galgando, a cada mistura bem sucedida, entre o amargo desgostoso e a tétrica nostalgia – tantas vezes nem vivida. Vou impregnando-me, da fragrância genuína, que de cada invólucro aberto, exala por meu tórax e o impregna.

 

Sou levado, no preparo de minhas iguarias, sou tragado, por minha própria nicotina. Deixo que me leve cada acre gosto e cada eflúvio de euforia, que cada composto, fermente à extasia. E que depois de pronto, mesmo as vezes a transfigurar meu rosto, deixo que tinja minha alma vazia.

 

 

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Entre. Vamos! Deixe-se seduzir. Siga o caminho mais curto. Acredite, simplesmente acredite, e farei seus problemas sumir. Venha futuro aluno sem luz, venha conhecer minhas soluções, atravesse o véu de minha tenda, que lhe prometo minhas melhores argumentações.

I

Envolto no fino vento soprado

os pensamentos lhe apagavam a vista.

Falava só sem ser escutado,

dialogava mudo com a senhora fantasia.

Ocupava cheio seu metro quadrado

- corpo calvo, feito bagaço - 

Chapéu no colo, crânio destapado, 

donde as idéias lhe fugiam em embaraço. 

À...

Olho para baixo: reflexo de mágoa na lâmina fria, fincada sobre o esterno que segura, através do aço, a asfixia. Excalibur em minha garganta, gosto de ferro na tosse contida. Pulmões em chama, queimam brônquios em atrofia.

A áspera língua que saliva mel, sente agora o gosto de cinza. E a antes pena preta que com tinta riscava o papel, soprada, encontra-se perdida. Da voz, um ganido torto, uma lembrança do assovio antes cantado. Um rouxinol quase morto. Desplumado.

Das trovadas me resta o...

Desejaria boa noite, se isso tivesse algum sentido. Desejaria, a muitos, consolo, se pudesse o ouvido dá-lo como o prometido. Desejaria mais palavras, quem sabe outras línguas, para que o peito surdo se acalmasse, e entendesse que saudade faz parte da vida.

Partiu-se o coração.

Comprou passagem e foi embora.

O corpo, largou em falência,

atravessando o pranto sem demora.

Correu à estação,

pulou pela a boca a fora.

E o peito, em urgência,

gritou: E agora?!

I

Parece-me tão leve

o peso de teu coração.

Parece-me tão bonita

essa tua ingênu...

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