O Afogado

Vou descendo, à profundar em vã imensidão, de pouco a pouco, a lentos metros, agarrando-me no anil hiato sem sustentação. De minha boca, de meu abarrotado pulmão, deixo que escape um grito mudo, rastro de bolhas em oposta direção. - Para ver se não me perco, se não esqueço a orientação. - E de minhas pernas pesadas, pelo chumbo que puxa-me ao chão, sinto chegar uma terra profunda, um abismo longo, que na verdade, não chega não.

 

No pélago das dúvidas perenes, sou inundado de palavras não ditas, que lotam-me a garganta - rompem-me a laringe que grita. - E fazendo o caminho inverso, essas palavras indizíveis, agudas voltam em profusão – agora legíveis – com único intuito de dragar meu coração, de fazê-lo perder-se no profundo dos temores acessíveis.

 

Posso perceber o borbulhar subindo, do grito não ouvido, escalando garganta à cima - as paredes lisas das bolhas em atrito – em um som implausível, um gutural e pouco expressivo grunhido, um gorgolejar de mágoas, incontido. Tento agarrar as bolhas, segurar o respiro, contrair o peito, em um fraco esforço torcido. Lanço o olhar à cima, ao infinito, para acreditar que não caio, mas que, na verdade, levito.

 

Sufoco no mote sem expurgo, na infinidade do não dito, em cada dano ou cada chaga, que não pode no brado ser expelido. Entalado na garganta, preso aquém do grito, sinto o nó d’água, a falta do ar que preciso. E em cada silaba não pronunciada, é mais uma grama adicionada à gravidade que deslizo.

 

Minha mente torna-se então mais espaçada, e as luzes não alcançam-me mais as vistas. Sinto a envolver-me perguntas, minhas e de outras tantas línguas. Todas úmidas, à prender-me por dentro, cativo com minhas próprias frases solistas. Eis que afundo pesadamente, sou em minha alma agora submergido, enquanto percebo o ar que me abandona, e o negror à puxar o corpo já esvaecido. Sou afogado em pensamentos, de azul cingido; estrangulado, por palavras que se fizeram no ardor contido. 

 

Pois há tanta voz, tanto grito, que pelo peito não pode ser absorvido. Mas que ainda assim, por mais renhido, há algo no corpo que não o deixa ser expelido. Um nó de carne, para o brado, obstruído, que acaba por aos poucos estrangular, entre tanto arroubo reprimido.

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Entre. Vamos! Deixe-se seduzir. Siga o caminho mais curto. Acredite, simplesmente acredite, e farei seus problemas sumir. Venha futuro aluno sem luz, venha conhecer minhas soluções, atravesse o véu de minha tenda, que lhe prometo minhas melhores argumentações.

I

Envolto no fino vento soprado

os pensamentos lhe apagavam a vista.

Falava só sem ser escutado,

dialogava mudo com a senhora fantasia.

Ocupava cheio seu metro quadrado

- corpo calvo, feito bagaço - 

Chapéu no colo, crânio destapado, 

donde as idéias lhe fugiam em embaraço. 

À...

Olho para baixo: reflexo de mágoa na lâmina fria, fincada sobre o esterno que segura, através do aço, a asfixia. Excalibur em minha garganta, gosto de ferro na tosse contida. Pulmões em chama, queimam brônquios em atrofia.

A áspera língua que saliva mel, sente agora o gosto de cinza. E a antes pena preta que com tinta riscava o papel, soprada, encontra-se perdida. Da voz, um ganido torto, uma lembrança do assovio antes cantado. Um rouxinol quase morto. Desplumado.

Das trovadas me resta o...

Desejaria boa noite, se isso tivesse algum sentido. Desejaria, a muitos, consolo, se pudesse o ouvido dá-lo como o prometido. Desejaria mais palavras, quem sabe outras línguas, para que o peito surdo se acalmasse, e entendesse que saudade faz parte da vida.

Partiu-se o coração.

Comprou passagem e foi embora.

O corpo, largou em falência,

atravessando o pranto sem demora.

Correu à estação,

pulou pela a boca a fora.

E o peito, em urgência,

gritou: E agora?!

I

Parece-me tão leve

o peso de teu coração.

Parece-me tão bonita

essa tua ingênu...

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