Bico de Pena

A áspera língua que saliva mel, sente agora o gosto de cinza. E a antes pena preta que com tinta riscava o papel, soprada, encontra-se perdida. Da voz, um ganido torto, uma lembrança do assovio antes cantado. Um rouxinol quase morto. Desplumado.

 

Das trovadas me resta o canto, mas não o canto pela voz declamado, somente um canto, onde o tinteiro encontra-se repousado. Pois perdida a pena, estou humanamente esvaziado, meus ossos ocos pesam mais que meu peito inflado.

 

A língua dos pássaros desaprendi - ao chão encontro-me pregado – e a memória dos céus, não passa de um azul ao longe riscado. Olvidei as orações, não há mais prece em meu ganido, esqueci-me das sentenças e sentenciei-me ao ocorrido. Pois quando me dei conta, pelo verbo tinha sido abandonado e meu cântico outrora polido, havia sido arruinado.

 

As palavras estão migrando - sem tocar o meu ouvido - voando para fora da garganta, em um grasnar distorcido. Vão-se embora frases tantas, vão assim sem ser sentidas, vão-se em voo idéias santas, vão assim sendo perdidas.

 

Pois sem pena encontro-me pelado. Ave liberta que perdeu a melodia. Que porventura extraviou sua graça e que agora mal assovia. Um pássaro que não o pode mais ser, pois não há pena, não há cantiga. Um parvo ser, que não renuncia a pena apesar da fatiga.

 

Queria ao final saber, se de plumas me vale uma fantasia, se paramentado igual eu era, encontro então minha alma antiga?

 

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Entre. Vamos! Deixe-se seduzir. Siga o caminho mais curto. Acredite, simplesmente acredite, e farei seus problemas sumir. Venha futuro aluno sem luz, venha conhecer minhas soluções, atravesse o véu de minha tenda, que lhe prometo minhas melhores argumentações.

I

Envolto no fino vento soprado

os pensamentos lhe apagavam a vista.

Falava só sem ser escutado,

dialogava mudo com a senhora fantasia.

Ocupava cheio seu metro quadrado

- corpo calvo, feito bagaço - 

Chapéu no colo, crânio destapado, 

donde as idéias lhe fugiam em embaraço. 

À...

Olho para baixo: reflexo de mágoa na lâmina fria, fincada sobre o esterno que segura, através do aço, a asfixia. Excalibur em minha garganta, gosto de ferro na tosse contida. Pulmões em chama, queimam brônquios em atrofia.

A áspera língua que saliva mel, sente agora o gosto de cinza. E a antes pena preta que com tinta riscava o papel, soprada, encontra-se perdida. Da voz, um ganido torto, uma lembrança do assovio antes cantado. Um rouxinol quase morto. Desplumado.

Das trovadas me resta o...

Desejaria boa noite, se isso tivesse algum sentido. Desejaria, a muitos, consolo, se pudesse o ouvido dá-lo como o prometido. Desejaria mais palavras, quem sabe outras línguas, para que o peito surdo se acalmasse, e entendesse que saudade faz parte da vida.

Partiu-se o coração.

Comprou passagem e foi embora.

O corpo, largou em falência,

atravessando o pranto sem demora.

Correu à estação,

pulou pela a boca a fora.

E o peito, em urgência,

gritou: E agora?!

I

Parece-me tão leve

o peso de teu coração.

Parece-me tão bonita

essa tua ingênu...

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