Algures

 

 

Olho do terraço a cidade acordando e tenho dúvidas se era realmente aqui que eu deveria estar. Vejo pombos voarem, luzes apagarem, vejo meu último cigarro vencer a barreira dos andares. 

 

De etéreos olhos confidentes a me nublar o raciocínio pergunto a minha memória onde viemos parar, tenho dúvidas se estamos todos em casa, ou ainda não a conseguimos encontrar. Vejo toda manhã as cores desbotarem, desintensificarem-se, seja aqui, em Londres ou em Shangri-La. Vejo as vidas desgastarem, tentando chegar a algum lugar, vejo as pessoas passarem, correndo o relógio, pensando em sua próxima localidade a alcançar. 

 

Daqui de cima, não sei se meus pés estão no chão, acho que nessa madrugada, acabei por me perder em algum lugar, entre o rotineiro e o inexplorado, entre onde estou e deveria estar; de peito oco, por onde estive e onde queria me encontrar, meio roto, por onde nunca fui mas queria ficar. Não me acho aqui por cima, mas acredito, que nem lá embaixo poderia comigo topar, andando de sítio em sítio sem nunca se fixar. 

 

Cigana sensação, de não poder se encontrar, essa tola fascinação, por esquinas e endereços, por querer cada espaço identificar. Um eterno deja-vu - tudo tão familiar - as mesmas placas e propagandas, as mesmas cenas a reprisar. 

 

Vejo lá em baixo, pessoas que sei que não estão ali, todas perdidas em seus próprios devaneios, retrocedendo ou antecipando em suas mentes os momentos ainda por vir. Aqui de cima, faço-me onisciente a tudo reparar: vidas mal vividas, pelo conforto a procurar, correrias, pulando espaços, enganando-se, sempre longe de suas covas acreditando estar. 

 

 

O dia já se encontra claro, mas agora, o tempo não me vale mais. Presente, futuro e passado, são resumidos no mesmo estado, o de sempre se estar em outro lugar. Mesmo assim, o relógio por fim grita, insistindo o dito momento de se mandar, mas não estou nem aí, na verdade, talvez nem mesmo aqui eu deva estar.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Entre. Vamos! Deixe-se seduzir. Siga o caminho mais curto. Acredite, simplesmente acredite, e farei seus problemas sumir. Venha futuro aluno sem luz, venha conhecer minhas soluções, atravesse o véu de minha tenda, que lhe prometo minhas melhores argumentações.

I

Envolto no fino vento soprado

os pensamentos lhe apagavam a vista.

Falava só sem ser escutado,

dialogava mudo com a senhora fantasia.

Ocupava cheio seu metro quadrado

- corpo calvo, feito bagaço - 

Chapéu no colo, crânio destapado, 

donde as idéias lhe fugiam em embaraço. 

À...

Olho para baixo: reflexo de mágoa na lâmina fria, fincada sobre o esterno que segura, através do aço, a asfixia. Excalibur em minha garganta, gosto de ferro na tosse contida. Pulmões em chama, queimam brônquios em atrofia.

A áspera língua que saliva mel, sente agora o gosto de cinza. E a antes pena preta que com tinta riscava o papel, soprada, encontra-se perdida. Da voz, um ganido torto, uma lembrança do assovio antes cantado. Um rouxinol quase morto. Desplumado.

Das trovadas me resta o...

Desejaria boa noite, se isso tivesse algum sentido. Desejaria, a muitos, consolo, se pudesse o ouvido dá-lo como o prometido. Desejaria mais palavras, quem sabe outras línguas, para que o peito surdo se acalmasse, e entendesse que saudade faz parte da vida.

Partiu-se o coração.

Comprou passagem e foi embora.

O corpo, largou em falência,

atravessando o pranto sem demora.

Correu à estação,

pulou pela a boca a fora.

E o peito, em urgência,

gritou: E agora?!

I

Parece-me tão leve

o peso de teu coração.

Parece-me tão bonita

essa tua ingênu...

Please reload

  • Facebook G.Pawlick escritor
  • Instagram G.Pawlick ilustrador
  • Behance G. Pawlick Ilustrador

Ilustrador | Santa Catarina - Brasil

0

Ilustrador tradicional e digital Brasil Santa Catarina Florianópolis Paraná Curitiba Rio Grande do Sul