Ábaco do males


O relógio marca o tempo que será perdido, e em um intervalo de um cigarro, tenho a certeza de que o peixe no aquário já esqueceu qualquer sentimento que o tenha acometido.


No ábaco dos males, louvai os peixes, que têm neles uma pedra só, não adicionam nem subtraem memórias, vivem sem pena, sem remorso, sem dó. São vão de histórias, mas com uma paz infinda, sem caraminholas que lhe comam a cabeça, não são melancólicos nem saudosistas. Rodopiam a sós, em seu cárcere de vidro, sem medo de mostrar ao observador o que estão sentindo.


Somos iguais aos peixes, mergulhados em nossas prisões. Somos todos solitários, trabalhando, em tudo que fazemos, para diminuir nossas solidões.


Mas enquanto os peixes, em suas estampas coloridas, no cromo cintilante, transparecem a essência de sua curta biografia, sem passado nem futuro, não ligando para seu degredo em algas artificialmente tingidas. Nós, no matiz de nossas escamas construídas, só escondemos a lembrança arredia. Fazemos de nosso corpo um cárcere de carne e tecido, para esconder o que o peixe não tem, e que por isso, contenta-se com as paredes de vidro.


Há quem diga que o dinheiro e as mulheres fazem o mundo girar, mas a solidão, é que nos faz por estes dois, incessantemente buscar. Não suportamos o exílio, incapazes de a nós mesmos suportar, ter que viver com nossas mentes, sem dos pecados poder se isentar.


Queremos a fuga rápida para aquilo que o peixe não remói, precisamos sobretudo, livrar nossas cabeças de pensar, ou quem sabe, de forma fugaz inocular o ácido de nossas reminiscências, que à cabeça corrói. Talvez seja por isso que parei distraído, pelas curvas do peixe, vendo-o em sua dança sem memória, sem pudor, sem libido - pura ocupação - mas que não ajudou-me a sair do lugar.


Por fim, acabei o cigarro, apaguei a luz e sai. E sem poder livrar-me do passado, fiz assim como o peixe no aquário, mais alguns minutos, e toda essa reflexão, já esqueci.